2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • Conto Sonoro - Epilef Annás

Um Ode a Sophie

Atualizado: Abr 29



Ato I


Cheguei empolgado do trabalho naquela tarde de sexta-feira 13. A casa estava um caos, como sempre. Louças empilhadas sobre a pia, cinzeiros cheios, roupas espalhadas por todos os lados. Ahhhhh! Precisava de ajuda (apesar de preguiçoso com arrumações, eu odiava bagunça) e sabia que poderia contar com Débora - minha nova namorada, sempre atenciosa aos meus pedidos. Depois de um banho relaxante, decidi ligar para ela.


Comecei pelas coisas mais fáceis esperando a sua chegada. Enquanto arrumava, pensava no que poderia fazer a noite para sair da rotina semanal. Queria que fosse uma noite intensa, plena; uma noite cega, uma noite rara.


Débora chegou por volta das oito da noite, toda empolgada com a notícia de que fora contratada como pedagoga em uma Instituição Educacional de renome, chamada Mentes Brilhantes. Quando me encontrou, eu olhava para o vazio, coçando a barba, pensativo, longe do espaço, fora do tempo. Então ela veio como uma gata, de fininho, me deu um abraço carinhoso e logo começou a tagarelar sobre suas coisas mundanas e novidades velhas; histórias que se repetiam, mas permaneciam estranhamente engraçadas. Ela é louca e gosta de limpar a casa assim, falando e falando sem perder o fôlego.


Débora realmente precisava de companhia e queria farrear comigo para onde quer que eu fosse. Disse que tinha uma festa rolando em um velho casarão de sua amiga de faculdade chamada Sophie, a mulher mais enigmática que conheci; sempre tinha uma frase conclusiva e cortante no fim de um papo. Enquanto todos achavam que ela não estava por dentro de nada, ela surgia dos escombros de sua alma e surpreendia a todos com seu jeito único de ser. Assim era Sophie; sua fama perpetuava-se, acima de tudo, pelas festas intermináveis e seu magnetismo.


Terminamos as tarefas e logo fomos em direção ao casarão, que ficava em Itatiba, aproximadamente a 90 km de São Paulo. Durante a breve viagem, encontramos meu amigo Mauro parado no trânsito da Av. 23 de Maio. Estava fumando seu cigarro, com olhos em chamas, empolgado por me encontrar e desesperado com o trânsito. Comentei sobre o nosso destino e logo gritou:


- "Só se for agora!"


O cara topava tudo, não tinha tempo ruim. Além de ser muito gentil em qualquer lugar que fosse, tinha o dom de chegar e roubar a cena, sem incomodar ninguém com isso, de maneira muito natural, já que sempre tinha boas histórias para contar, cativava a qualquer um, desde pequeno foi assim.


Um Ode a Sophie

Felipe Sanna

Ato II

Mauro não conhecia Itatiba, nem conhecia Sophie, mas queria conhecê-la, pois já comentara sobre a garota algumas vezes a ele, que estava sempre atrás de um novo romance que pudesse mudar a sua vida, para melhor ou pior, o importante era ousar, experimentar, e ele era envolvido por todas as necessidades de todos os seres em um só corpo, queria sempre mais e mais.


Havia a empolgação de chegar logo em uma festa insana, em um lugar desconhecido, e na estrada passamos por uma blitz rodoviária que apagou por um tempo o nosso fogo. Os homens suspeitaram por algum motivo e sinalizaram para que o carro de Mauro parasse. Não pensou duas vezes. Parei logo à frente esperando o desenrolar da ação. Apesar dos olhos ainda vermelhos, Mauro sabia como se sair bem de uma situação adversa, e logo começou a tirar gargalhadas dos policiais com suas piadas certeiras. Eu à distância também sorria por instinto, como se já soubesse o fim da piada.


Não demorou muito e logo estávamos na estrada novamente. Mais alguns minutos chegaríamos ao casarão. Débora já se maquiava enquanto eu batia no volante ouvindo minha nova gravação. Há tempos tinha montado uma banda e as coisas estavam começando a acontecer. Com o som no talo, cortava a estrada a quase 160 Km por hora e não tinha tempo a perder, a festa já começara e boatos diziam que Sophie iria revelar sua vida, suas verdades, seus segredos, a todos os presentes, mas por quê?


Alguns quilômetros adiante, Mauro quis parar num boteco para comprar cigarros e tomar uma dose. Débora preferiu ficar no carro a se maquiar. Fui com ele na urgência de um banheiro, minha bexiga estava prestes a estourar.


O tal do boteco era horrível! Com música brega e brutamontes com facões na cintura, jogando bilhar e mascando fumo. Parecíamos alienígenas naquele lugar, e eles perceberam que não éramos dali logo que entramos. Mauro não deu à mínima e logo pediu sua dose enquanto fui ao banheiro. Por sinal, o pior banheiro da minha vida! Não havia pia, privada, só um buraco no chão e um espelho rachado pendurado numa parede toda pichada com aquelas frases características de banheiro público. Graças a Deus era uma simples mijada!


Saí do banheiro e logo avisto Mauro no balcão trocando insultos com o dono do bar - um português robusto e grosseiro em seus modos. Mauro queria pagar tudo no cartão de crédito, cerca de 10 reais, mas o boteco não aceitava. Lógico! Acho que naquele lugar nem sabiam desta forma de pagamento e ele não tinha um puto no bolso, não gostava de andar com dinheiro, tinha lá suas razões...


Tratei de pagar a conta e puxei Mauro para fora daquele bar, enquanto todos se armavam com tacos de sinuca e vinham ao nosso encontro. Xingavam e urravam palavras que nunca ouvi, características daquele lugar, que nunca mais iríamos esquecer, por outros motivos...


Ato III


Fiquei realmente emputecido com ele, mas sabia que o local da festa estava a menos de 3 km e só queria pensar em coisas boas, novas possibilidades, encontrar pessoas verdadeiras, iluminadas, buscando redenção, emoção; embriagadas pela inocência bêbada, como válvula de escape ou saída de emergência; com urgência e até mesmo desespero, eu continuo fugindo, fugindo eternamente dessa serpente mundana que está sempre pronta a dar o bote em nossos sonhos iluminados, a espera de um vacilo, sedenta pelo próximo da fila, para assim perpetuar a sina da qual estamos todos destinados! Transformados em estatística, aqueles que nunca serão, ou não, serão sim, o próximo da fila? Não! Agora não!


Tinha ao meu lado Débora, extremamente linda, sensual, atenciosa e sublime. Sim, eu sabia que a tinha nas mãos, pois eu era tudo que todos nunca conseguiram ser, e ela era tudo que todas tentavam ser, naturalmente, estávamos apaixonados e loucos, consumidos pela força densa que nos movia, assim é a paixão, precisava mesmo viver isto algum dia. Estava orgulhoso de tê-la ao meu lado, satisfeito, potente, assim cheguei ao casarão, com Mauro a perguntar ao primeiro sujeito que viu:


- Conhece Sophie?


O nome do sujeito era Lelo; um ser magro, quase seco, com um nariz pontudo e alongado, estilo judeu, cabelos ralos e pele escamosa. Conhecia o gajo de vista e sabia que era considerado de Sophie o suficiente para estar na festa; estava surpreendentemente sóbrio, o que não era habitual de sua persona, já que em todas as vezes que topei com ele, sempre estava abraçando privadas ou beijando sarjetas.

- Sim, claro! Respondeu.

- Ela está no último andar do casarão, no quarto de sua falecida avó, estão todos na porta pedindo para ela sair de lá, mas ela não responde.

- Está lá a cerca de uma hora, não sei o que houve, mas acho que ela está numa tremenda bad trip...


Suas informações foram úteis para sacar que a festa já começava estranha, o que achei excelente. Corri em busca de uma fonte de whisky que devia haver naquela festa, de preferência um Jack Sem Gelo, sim-sim, vamos às fontes, com urgência.


Débora estava preocupada com Sophie e correu para o quarto onde tudo acontecia, enquanto Mauro dançava com uma mestiça exótica ao som de Jorge Bem - não perdia tempo o sujeito, ainda que perguntasse a cada instante:


- Cadê Sophie? Preciso conhecê-la!

- Vai fundo!

- Esquece isso agora, pois ela não quer conhecer ninguém pelo que parece, não é mesmo?

- Tudo tem seu tempo, se algo tiver que acontecer entre vocês, esse algo irá te procurar, como um acidente procurando a próxima vítima.

- Verdade, você tem razão!


Mauro estava com aquela linda mestiça enroscada em seu pescoço, totalmente dono da situação, enquanto eu já sentia falta da minha preciosa fêmea. Porque estava a demorar tanto? Dei mais um gole no meu Jack e larguei o copo com Mauro que tomou tudo numa tragada só, e seguiu no ritmo do som, alucinado como sempre.


Cambaleando, segui pelas escadas que levavam ao tal quarto onde se encontravam Sophie, Débora e o resto do povo. Gritos vinham do último andar; histéricos, delirantes, transparecendo que algo realmente grave acontecia naquele lugar, enquanto a festa rolava com tiros de rojão, copos quebrados, som no talo, e eu querendo cigarro - cigarro!


Havia deixado meu maço com Débora, portanto pedi um cigarro para uma ruiva muito charmosa que estava conversando com suas amigas sobre esoterismo dentre outras coisas. Ela me deu de prontidão e acendeu para mim, o que me chamou a atenção. Perguntei a ela se sabia o que aconteceu com Sophie:


- Claro! Estão todos lá em volta do corpo.

- Como assim? Fiquei pasmo!

- Vá até lá e veja com seus próprios olhos!


De imediato meu coração foi a mil, batia como o coração de um maratonista em uma corrida sem fim, não tive coragem de prosseguir, desci as escadas e fui imediatamente atrás de Mauro, fumando meu cigarro com fúria, literalmente fora de si. Tudo a minha volta parecia um filme-B, nonsense, bizarro e subversivo.


Logo avistei Mauro com o copo cheio, conversando com Lelo; ambos pareciam não saber do ocorrido. Mauro queria tanto conhecê-la...


Fui até eles desesperadamente, puxando-os pelos braços sem rodeios.


- Está ficando louco! Gritou Mauro.

- Não! Vamos acompanhá-lo, acho que sei aonde ele quer chegar - disse Lelo em tom profético.


Subimos rapidamente as escadas, enquanto mulheres choravam por todos os lados gritando o nome de Sophie. Encontrei Débora em cima do corpo aos prantos, ela havia arrombado a porta e foi a primeira a presenciar a cena.

Sophie estava nua, com os pulsos cortados, desfalecida, pálida como um anjo.

Naquela cena terrível notei um retrato ao seu lado, era o retrato de sua avó.

Nas mãos de Débora havia um bilhete deixado por Sophie que dizia:


- Agora irei morar com a única pessoa que me amou verdadeiramente nesse mundo.


Mauro me abraçou aos prantos e disse:


- Quem sabe eu poderia ter mudado esta história.


Era tarde demais...


UM ODE A SOPHIE

Epilef Annás (2015)

Um Ode a Sophie - Texto e Música - Epilef Annás (Felipe Sanna)

Clipe e Arte - Felipe A. Zamboni (FAZ)


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