2020

II -Segundo Ato

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  • O Policarpo

Prometeu - A Descoberta do Fogo

Nada incendeia até então, que não seja por ordem dos Deuses, nenhuma fumaça e nenhum fogo, é senão, obra do acaso, das forças superiores aos homens.


- I -

Noite escura, dor, derrota e solidão, Prometeu perdera aliados, sua grei; entre eles, mulher e filhos, assim eram as manhãs de combate por poças d'água, arvoredos e riachos, frutos e caças, terreno e multiplicação da casta!


A alvorada trazia guerras, fome, restos de alimentos, carne e carnificina, lanças e pedras, não havia vida selvagem que fosse mais selvagem que os hominídeos numa terra esquecida, de tantas espécies extintas.


Essa noite, trazia a Prometeu lembranças de sua última derrota, daquela tarde de combate. Não restava mais ninguém ao seu lado, só a escuridão da caverna que lhe sobrava como dolorosa companhia - pelo instante que pudesse ser dono daquela fenda em rocha calcária, se assim, felinos selvagens não reivindicassem, aquela morada na terra!

Os temores de Prometeu lhe encolhiam, como um retorno ao ventre escuro. O medo não tinha escora, sua fome não lhe abandonava, seu queixo tremia, o frio não se escondia, a natureza não lhe ouvia; o que adiantaram todos aqueles ossos em oferenda aos Deuses, do que valeria toda aquela vida, a justiça e a partilha, se agora nada mais existia!


- II -

Foi assim a noite de Prometeu, sobrou uma chama em si, de vida, mas nada em que cria, nem crenças, nem crias. A luz do dia lhe tomou tudo o que tinha - sobrou a noite, lhe negando um simples açoite, por ora, talvez.


Em delírio Prometeu ouve as paredes murmurarem, trepidam e falam, numa língua a nós incompreensível, mas para os antigos perfeitamente compreensível!


- Acreditou em seu Deus, todos os dias?

- Acreditou na fé e na salvação da vida?

- Olhe para ti, moribundo e faminto, acha mesmo que foi longe demais nesse dia?

- Não tenha pena de si mesmo e de nada, me ouça e esqueça a agonia!

- Vim lhe trazer um presente, e após ele, nada será igual, jamais, nem você, nem a noite, nem o dia!


Prometeu se levanta assustado, liberta-se do manto de búfalo assimilado, procura aquela voz, teme a demoníaca possessão da fome ou da escuridão! E era ele, um demônio sem rosto, uma penumbra na noite!


- Eu também sou um prisioneiro Prometeu, fui expulso de meu lar, enquanto eles no céu brigam, para controlar o sol, a lua, o dia, a noite e o ar!

- Mas eu te trouxe o olho da verdade - o calor no vazio - uma arma dos Deuses - a revolta dos injustiçados e ele será seu, todo esse poder!

- Ouça, e não se esqueça, sua vida nunca mais será a mesma, nem sua fome, nem o escuro, seu corpo, sua fé, suas crenças!

- Só peço uma coisa em troca!

- Buscará a verdade com essa magia. Ela é maior que a luz, que as sombras, que a penumbra, que a escuridão, buscará com essa força de Deus, vossa salvação, nada mais será o mesmo Prometeu, saiba disso!

- Retornarei mais vezes, na forma do medo, e só você saberá que eu te dei aquilo, que chamarão de fogo!


- III -

A sombra se vai, se perde no horizonte entre a parede e o chão, mas nada é deixado. Prometeu fica sem entender nada, ele sai para fora vislumbrado, em meio ao frio - então um raio dobra o tempo, quebra o graveto, escora uma tora, uma mistura de premonição, perguntas e medo!


Prometeu se aproxima do galho em chamas, gira em torno do fogo deixado pelo raio, se ajoelha e depois senta, segura o graveto, seus olhos brilham, alucinados por desejo. Ele pensa na voz e no raio, assopra essa tora quase a apagando, e ouve o crepitar do novo mundo, ouve todas as vozes do futuro, assopra e assopra, fumaça escura, carbonizando a madeira, luz amarela e vermelha!


Nada ainda pode fazer. Sua mão vai à mandíbula, pensamentos em movimento. Assopra e assopra, ao seu lado mato seco, assopra o resto da brasa, o fogo se propaga, graveto, vento, selva seca. A escuridão vira cinzas, as cinzas viram fogo, o fogo vira luz, os deuses se desvelam sobre o capuz. Audacioso Prometeu, roubou a magia de Deus!


- Quem foi que lhe deu o fogo Prometeu?

- Por que me traiu?

- Como ousa roubar seu Deus?


...Gritou Deus, com seus trovões!


- IV -