2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • O Policarpo

O Filho do Maracanã

Atualizado: Abr 29



Era tarde ensolarada no Rio de Janeiro, umas quatro horas e tantos minutos, tarde de vida e morte, dia de Fla x Flu, final de campeonato, depois de um longo carnaval. Não havia outra prioridade para àquelas vidas, senão vencer, vencer e vencer de um lado - d’outro - era a paz, esperança e vigor.


Final de campeonato carioca, para a torcida a crença nos campeões ou a dor na derrota; a esperança renascida a cada partida, ou a garantida anedota para o esquadrão que não conseguisse a vitória.


1º Tempo - 0'00''


Os times de mãos dadas, o juiz logo apitou o início da partida, quem iria vencer o jogo mais intenso que podia se esperar, glórias em jogo e anos sem títulos em ambos lados, nessa tarde o sol era tamanho e o calor era clamor. O Deus da vida e do futebol se escorava no alto do Maracanã, enquanto a raiva dos jogadores rubro-negros era tão grande, que uma bola logo cedo foi chutada e afagou a teia da glória, fez barriga naquele laço branco. Gol do Flamengo!


Flamengo 1 x 0 Fluminense



1º Tempo - 9'38''


A torcida flamenguista canta e se anima, na arquibancada um casal era meio alegria no marido flamenguista, e meio desatino na mãe tricolor. Não era dia dela ficar triste e nervosa, a barriga estava grande de grávida esperançosa. Os meses se passaram desde a semente germinar aquele ventre, e desde o último campeonato, mas isso é bobagem, enquanto uns gritavam gol, deu o tempo de outro gol, esse do outro lado, um cabeceio e o jogo estava empatado!


Flamengo 2 x 0 Fluminense



1º Tempo - 14'11''


Era chute de todo jeito, dribles, gingado, catimba, urubu voando baixo e a aristocracia comendo grama e barro! Jogo duro, o empate não era de ninguém, até que sem dó, mais uma bobeira Fluminense, e é gol de um traidor, artilheiro flamenguista de Xerém! De um lado 2, de outro 1, primeiro tempo ainda no começo, a gravidez já no fim, na geral do Maracanã, pai, mãe, filho, filhos, irmãos, irmãs, avós, avôs, esquecidos e encontrados, todo tipo de gente, no concreto armado para o infinito espetáculo da bola e do povo da bola.


Flamengo 2 x 1 Fluminense



1º Tempo - 27'03''


Não dá tempo de fazer resenha, é gol em meio a bobeira, o zagueiro alto, perdeu bola no alto é gol de quem está de rubro e de negro, 3 a 1, o delírio rola solto, depois de um tanto de tempo o título estava perto. Vacilou de novo é mais um gol, esse de voleio, depois de uma linda matada no peito, êxtase, arquibancada treme e sacode o bebê antes de nascer, de 0 a 0, era 4 a 1.


Flamengo 3... 4 x 1 Fluminense



Intervalo

O pedreiro Barbosa, se divertia, mas não ria muito, sua mulher Iracema não ia gostar, seu Fluminense perdia de muito e o bebê chutava muito. Sol no céu castiga os derrotados, era mais quente a cada gol tomado, quem vencia se refrescava, no intervalo água parecia água de coco, ou cerveja gelada, depende do gosto da boleirada.


2º Tempo - 0'00''


Bandeiras hasteadas, cantos hinos, crenças, fé, santos, fantasias, ritos e gritos! Cada um do seu jeito, nada havia acabado, ainda tinha tempo de haver muita alegria e muita dor! O jogo recomeça e urubuzada cantava - aristocracia não acreditava. Mas não dá muito tempo e a esperança voltava, gol de canela, joelho ou mão, a bola pingou de qualquer jeito na área, no sufoco e na raça foi para dentro, desamarrar o barbante e desafogar a agonia, agora de um lado 4, no time de três cores, dois.


Flamengo 4 x 2 Fluminense



2º Tempo - 18'39''


Briga e tumulto, discussão, empurra-empurra e um de cada lado no canto, esses vão ver o resto do jogo no vestiário, depois de um banho gelado. O jogo continua e novo gol, agora foi bonito, com firula, é gol tricolor! 4x3! Tudo bagunça na cabeça de todos, a vitória garantida vira medo, o jogo perdido vira esperança. A barriga gorda da mãe fluminense, dói e se mistura com a alegria, seu marido rói a unha da mão, se pudesse roeria também a do pé.


Flamengo 4 x 3 Fluminense



2º Tempo - 32'16''


Jogo aos trinta e tantos minutos do segundo tempo, ia dar Flamengo ou não, gol do Fluminense, empate e delírio para quem estava carente. A bolsa estourou, nem a mãe, nem o pai viram, ninguém sabia o que estava acontecendo. Chegou os quarenta cinco minutos, quatro minutos de acréscimo, suor, cabeças enfaixadas e camisas suadas, não deu tempo de se recuperar e é novo gol do Fluminense, virada heroica, nesse jogo de vida e morte, tudo ou nada!

Flamengo 4 x 4... 5 Fluminense



2º Tempo - 47'01''


Na arquibancada a mãe se alegrou e se ligou, a criança estava adiantada, ia nascer, mas sem que o impedimento fosse marcado. Não tinha médico obstetra, de longe só tinha no camarote uns jogadores do Tetra, perto nem parteira, nem herói, nem ninguém, afinal quem mandou vir no Maracanã ter neném? ​


2º Tempo - 48'13''


Um minuto para o fim, um tanto de torcedores viam a criança nascer de cabeça para baixo, sem poder ajudar, queriam ver o juiz apitar, mas não deu tempo, os jogadores inventaram de acreditar, é gol do Flamengo, cinco de um lado e cinco de outro, dez gols, o jogo iria para os pênaltis. Iracema e Barbosa foram ir no Maracanã em dia errado, muita emoção, os noves meses não chegaram, mas faltava pouco.


Flamengo 5 x 5 Fluminense



2º Tempo - Fim de Jogo!


O bebê nascia, era negro retinto - um tom de Pelé, perna torta - parecia menino Garrincha, pequeno e marrento, nascia e não chorava - era Romário, gordo e preguiçoso - um Fenômeno de fim de tarde, a família é de Bocaiúva, só podia ser - um Galinho de Quintino. Os pais em desespero, a mãe mordia a camisa do Flamengo, gritava e suava, a câmera estava longe, não via o milagre acontecer, o menino não tinha nome, o pai pensava e pensava, a criança nem nasceu e já sabia gritar gol, queria chutar e queria torcida para cantar! E a torcida cantava, vibrava, ninguém acreditava!


3º Tempo - A Vida Recomeça...


- Um redentor nasceu, Maracanã renasceu, o futebol está vivo.


O Sol ia dando em mais uma tarde seu adeus, deixou nesta terra campeã o filho que prometeu, o futuro da nação, na terra da bola. Até que todo mundo viu. O jogo acabou, e os jogadores se negaram a continuar, os pênaltis iam ter que esperar, a mãe e a criança foram levadas para o meio do Maracanã.


No canto do estádio a sirene soava o sinaleiro, nasceu mais um filho brasileiro, vamos - vamos, te levo para o hospital, a mãe precisava, o pai desesperado, todos em silêncio, mas a criança era engraçada, de pele escura e parda, queria mesmo é fazer graça, de olho aberto, já nasceu campeão, fora de hora, aprontou, pivete aguerrido, na sua saída de campo a criança olha para trás e diz até logo, de resto digo, lá vem ele...


Um craque prometido... Filho do Maracanã...


O FILHO DO MARACANÃ

Policarpo Praxedes (2016)


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