2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • O Policarpo

Gethsemani - Um Prelúdio



Há tempos remotos um homem rezou sobre os pés de uma árvore, dessa brota a seiva e o fruto; um azeite dessa oliveira, e a azeitona de tantas outras oliveiras, dessas vidas nascidas em terra seca. Angústias e tempos se passaram e as preces continuaram...


(...)

O Sol, a onipotência e a própria prova da existência de Deus; acorda esse homem, face sóbria, cabelos já bem-postos, dia quente no Rio de Janeiro - seu olho se abre, uma ressaca tranquilizada da noite anterior, e já não era sua despedida de solteiro, eram soníferos, que supriram sua dor, inquietudes tratadas para continuar existindo.


...O homem acabara de perder sua futura esposa!


Lua de mel definida, iriam ao oriente médio, iniciando pela Jordânia, conheceriam Petra, e terminariam na terra natal de Yasmin, Líbano, uma viagem planejada e ensaiada, pelo merídio oriental, visitariam algumas cidades, místicas e turísticas em países milenares.


Para Yasmin, os planos se foram, a fatal vida urbana, lhe retira o resto de tempo nessa terra, com ela sua semente, estava grávida, assim já estava, pouco antes do casamento. Já ele Lázaro, enlouquece, mas seus amigos sugerem que ele viaje!


Após o infinito do desacerto em seu peito, ele acata a sugestão de todos, assim talvez pudesse experimentar o que a vida havia lhe prometido, esse grão de felicidade e do grão só sobrou uma faísca de fé e uma porção de fúria...


(...)

...Já na terra dos antigos, uma sensação de passado estava presente em toda parte, haviam rostos e olhos que te espreitavam, ele se sentia parte daquela terra bege, mas ele não era dali, e lá se vão noites sem dormir...


Em meio ao labirinto de rochas, refúgio de terrores e temores de uma civilização passada e presente - àquela igreja, aquele refúgio talhado nas rochas, um castelo de fé e argila - Petra na Jordânia.

Um homem lhe seguia até lá, sem que fosse visto em meio de tantos semelhantes e este, o homem, parece compreender a dor de Lázaro, ele se aproxima, desatinam os nós de Babel, e em um inglês pouco ensaiado, Lázaro encontra meios de se fazer entender, naquele inglês britânico, islâmico, médio oriental, o árabe também se faz entender...


O jordaniano Haslam, antigo beduíno do deserto, logo se mostra como tal, a tatuagem de seu clã não pode ser escondida sobre o seu braço!


Ele suporta a angústia de Lázaro, promete lhe ajudar como um guia turístico, e antes que a conversa fosse além da ajuda possível, Haslam lhe oferece algo - um desses derivados do ópio, posto em pasta e uma casca mastigável, um tipo de droga experimental do oriente, alucinógeno; logo seus medos adormeceriam, mas ainda assim fortes visões do imaginário - sua mulher revive - diante de seus olhos, quase que imediatamente. Lázaro não sabia o que poderia ser a tal pasta, aceita-a como oferta de boas-vindas.


...Adiante ele então se entorpece outras vezes, se inebria no desértico destino, seu achado guia está lá, longos caminhos, paisagens, camelos, rochas, tecidos, vento ao leste - oeste, areia e véus voando no tempo.


(...)

Certo dia, já próximo à fronteira de Israel, ele sai de camelo a noite. Mais buscas, mais perguntas, a pele se solta do rosto, querendo levar a sua angústia...

...Lázaro peregrina em sua viagem até que chega em Israel...


Um hiato sobre seu caminho e um desequilíbrio de sentidos, mas Lázaro se mantém em pé cambaleante pela lírica Árabe, notas e sons ecoam no ar - o alaúde coordena seus passos, e então, uma escuridão vazia sobre seus olhos - em seguida o despertar, Lázaro acorda em Jerusalém sobre uma árvore, percebe os solavancos da raiz da árvore que lhe escora, trêmulas raízes ao vento. Noite insólita - noite clara, todas estrelas lá postas no céu, o mesmo céu que sempre foi mapa - que sempre guiou os homens, iluminando-te, mas já era noite, o porquê de tanta claridade?


...Um homem ora ao seu lado, Hebreu, Islâmico, ele não tinha ideia, só podia entender a dor expressa daquele homem. Lázaro se punha até então em comunhão com todas dores que tem visto, ou tenha ouvido se dizer, ousado pensar.


A mão ressecada que rezava, se estende a uma bolsa com água, e logo a água é oferecida a Lázaro. Uma noite estranha, uma noite clara e estrelada. Este homem também se livrou da maldição de Babel e em seu inglês hebreu, conta que aquela árvore - Az-heltim - dizia ele, era a verdadeira árvore da última prece de Jesus...


- É sobre esses pés, que homens dobram seus joelhos, e rezam, assim como os sinos dobram os ventos e encolhem o tempo!

- Ela é eternamente sagrada, aproveite e faça sua prece, como um grande homem já assim o-fez.


Atento ao que estava acontecendo, ele pega uma azeitona caída no chão, escondido em folhagem seca, ele a olha, era uma experiência antiga de se conhecer algo novo, em um piscar de olhos, o fruto se avermelha, não podia ser, o verde ficou vermelho...!

Mas o israelita ao lado de Lázaro parece não perceber...

Lázaro se vira para debater sobre sua momentânea insanidade com o homem de longa barba cinza. Então ele se vira, e o tal homem não está mais lá, sumiu como a verde cor da azeitona.


Ao fundo se houve em hebraico num rádio anunciando uma tempestade de areia que não se via há muito tempo em Jerusalém. As Igrejas em torno já fechadas e sinos soam e soam, um eco que dobrava o assim o tempo, avisava sobre os ventos. Todos fecham a janela, naquele tanto de noite que restava! Assim, isso e um tanto disso, Lázaro ouvia e via!


O homem não tem para onde ir, não queria voltar ao hotel, almofadas lembravam a sutileza da pele de sua prometida esposa, ele só queria continuar, se encontrar e se restituir... Em meio a tantos pensamentos se arrependia de estar ali, voltaria se pudesse, de imediato para sua casa e sua vida.


Lázaro então fica mais sobre a árvore alucinando, cambaleia e pensa metáforas, de tudo que sentia. Enquanto ele cronometra sua atenção com punhados de areia - pegava-as sobre o chão e via escorrer sobre seus dedos! Fazia assim... e fazia...


...A tempestade de areia então surge, a muralha de sedimentos, consome tudo que seja visível, consome a luz, a muralha de areia era negra, e cristas azuis de um quase escurecer era onde se via a luz escapar, ele então se perde no meio da tempestade seca...


Quando parece acordar, ou se reencontrar, está em uma ilha, apenas com uma árvore seca sobre o mais alto patamar, envolto em um círculo de pedras e sua paisagem bege, cerâmicas e ladrilhos compõe o jardim de um vazio eterno. Não tinha como dar quatro passos certos de onde se ia - tudo era pura imensidão, um vazio bege e cinza.


Para sustentar o chão, blocos de argila, ele certo que estava cercado de um abismo ou de incerteza de terra aos seus pés... Quando avista um caminho se pétreo caminhado se formando rijas cerâmicas, Lázaro segue o som que ouve, um choro de criança recém-nascida.


Em meio a visões lúdicas ou devaneios, um rompante, alguém aparece diante de seus olhos em um camelo a sua frente, carregando uma criança, outro beduíno será? E do camelo olha para trás uma face escondida em seu turbante, indumentária clara, um trote vagaroso, que logo se apressa... Mas com tanta areia só seus olhos negros são visíveis, reflete assim a luz de uma lua que encontra a passagem, e o contorno dos olhos ainda mais negros... Ainda mais intensos... Lázaro quase cai no abismo que cerca seu caminho!


Então a tempestade aumenta e o camelo some, a garantia de queda do abismo se faz, ele cai! Atordoado, perdido, molhado - acorda numa fonte, acorda com risos, platinas soando batidas, solados andando - já é dia, ele está em meio a uma feira em Jerusalém...


Todos olham-no, e uma mulher oferece ajuda, olhos claros, azuis, de um tom cinza e único, um cinzel que talhava Lazáro. Após a mão estendida, a atenção desprendida a Lázaro, ela se apresenta.


- Meu nome é Hana, pelo visto você não é daqui, espero que não esteja bêbado para cair assim pelas ruas!

- Não estou, eu me senti mal apenas, preciso descansar e de água, sou brasileiro, e me chamo Lázaro.

- Eu sou palestina, mas moro aqui em Jerusalém com meu pai. Venha, me acompanhe consigo água para você, a não ser que queira beber dessa fonte babada por camelos.


(...)


Um tanto de conversa depois... Lázaro já curioso sobre o lugar, e propriamente sobre a história de Hana, conta brevemente sobre o que fazia ali. E Hana também conta sobre suas histórias, nascida na Palestina, renascida na Inglaterra, foi estudar e morar lá quando perdeu sua casa e marido, seu bairro foi bombardeado. Em meio a ajuda e a curiosidade ele pergunta se ela não tem raiva dos israelenses. Afinal, bombardearam sua casa e família!


Ela responde olhando pela janela:


- O ódio só atraíra mais ódio, mais e mais ódio!


Hana ainda diz que atualmente prefere ficar em Israel, se sente mais segura perto dos seus possíveis inimigos. Enquanto a conversa se estende, o pai de Hana desce as escadas, sua vista é quase que completamente falha, nada vê, mas sabe sobre o visitante viajante. Olha para ele com seu rosto já cansado e um tanto marcado pelo tempo, diz algo antes, em som baixo a sua filha, ao final da escada, o pai de Hana lentamente ajusta suas roupas e completa o olhar para Lázaro, mesmo sem ver, quer ver quem seria o forasteiro...

(...)


(...Prelúdio para um Livro)


GETHSEMANI - UM PRELÚDIO

Policarpo Praxedes (2014)


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