2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • Psicólogo Felipe Zamboni

Estágio no Centro de Acolhida

Atualizado: Abr 29


Morador de Rua (Camila Conti)

I - Introdução


Em tempos de estágio de psicologia a disciplina era Grupos e Comunidades. A proposta até então parece "simples", intervenção comunitária. As opções na disciplina são postas, o projeto para nós estagiários era desenvolver e aprimorar nosso trabalho técnico em comunidades carentes da Grande São Paulo, ou mesmo em lares abrigados, a demanda parece clara, de fato é, são regiões vulneráveis e instituições igualmente vulneráveis.


A definição de qual será a escolha é feita por dois de nós estagiários, todos os outros estagiários decidiam ir para as comunidades ditas "carentes", decidimos intervir no albergue, logo mais uma outra pessoa junta-se ao grupo, inicialmente composta por amigos próximos, posteriormente mais dois interessados, novos companheiros para o grupo já em fase final de curso.


Ao todo seria um projeto de um ano, assim foi. No início do projeto, com os devidos ensaios técnicos e questionamentos feitos; afinal o que veríamos? Se não a própria fantasia criada sobre os moradores de rua - trapos, mal cheiro, deambulantes, usuários de drogas, alcoólatras, adjetivos outros podem ser postos, todos jocosos, personagens prontos, é a - quase certeza - de nós, que antes de psicólogos somos seres viventes, livres para termos medos, angústias e livres para não saber nada do que veremos.


II - Resumo dos atendimentos


Chegando ao albergue fomos apresentados, os processos burocráticos anteciparam as apresentações e logo a apresentação do local trouxe estranheza, mas era estranheza boa; higiene, organização, profissionais atenciosos; a própria existência de profissionais - portas abertas, boa noite de cá, de lá e alguns: - Sejam bem-vindos!


Posteriormente a conhecer, ler, discutir, sermos apresentados, termos medo e as sinceras apresentações, nós fomos de sala em sala no Centro de Acolhida (SAICA) no centro de São Paulo. Sala de televisão, cozinha, dormitórios, moradores em situações de rua - em uma situação de acolhimento; conhecemos voluntários e profissionais. Tudo que foi imaginado pelo grupo dos personagens, logo de início se confirmou, eram mesmo atores sociais, mas com certa diferença da inicial, isso era claro para todos nós, algo que se expressava pelo olhar entre nós e no comentário verbal posterior.


Víamos pessoas com nomes, cidadãos brasileiros e alguns estrangeiros, que pediam ajuda e contavam histórias, longas e hipnotizantes histórias, ouvimos sobre antigas riquezas e atuais misérias, fugas sem destino e algumas sem motivos, alguns riam e outros questionavam, era certamente novo para muitos, e novo em especial para nós, os psicólogos no abrigo.


Já chegamos ali com a técnica e a ética prontas, ou deveríamos estar preparados para tal - lembrando sempre da negação do júbilo sobre a alma. Não deveríamos ou faríamos juízo de valor e nem nos assustaríamos ou culparíamos os réus confessos, mesmo ouvindo as histórias de quem esfaqueou outro alguém, histórias dos antes presidiários homicidas, traficantes e dos que ainda querem vingança. Tal juízo apenas nos afastaria, não compreenderíamos a essência. Nos poríamos como intrusos e essa verdade técnica ou humana, se mostra na relação, de ter uma fila de histórias para serem contadas, ou no caso desse fracasso profissional, uma fila de juízes, questionando - quem éramos - o que sabíamos - o que fazíamos ali - o que queríamos - quem somos nós - num mundo social tão selvagem, claramente postos naqueles olhos.


A fraqueza e a nossa prepotência apenas dificultariam um trabalho que pretendia ter sucesso, mesmo que apenas para um ou dois abrigados. Acreditávamos antes de tudo no sucesso do legado, o sucesso do iniciar, da incitação da mudança.


Conhecemos homens e mulheres inteligentes, geniais e consagrados artistas; sociopatas, alcoólatras, usuários de drogas, transexuais, filósofos, viajantes, ex-presidiários, doentes crônicos, foragidos de suas próprias vidas; homens depressivos e psicopatologizados, enfim, isso é o que temos de começo. Tudo poderia ser posto em catálogo de histórias, mas a verdade é que ouvíamos seus nomes, suas idades, profissões, desejos, medo e tais histórias, repetidas vezes para muitos. Havia pessoas novas que chegavam com discursos breves, outros longos, uma história começava em uma quarta-feira e como um livro esperávamos pela próxima quarta-feira e como escritores eles esperavam os próximos encontros para nos oferecer novos livros.


Havia dias bons - tranquilos, fáceis de conduzir a fala, outros vazios poucos queriam aparecer, nem nós muitas vezes queríamos aparecer, mas aparecíamos e entendíamos o por quê.


III - Supervisão dos Atendimentos


Voltávamos à supervisão com cada história, era de fato um grande roteiro, rico e precisava ser organizado, a fenomenologia e a filosofia, não preparava nossos passos, preparava nossa alma, era necessário para suportar. Todos os colegas do grupo tinham as mesmas queixas - ansiedades, mas cada um com sua identificação; já o livro e a técnica se mistura a todos anos de faculdade, tudo deveria ser útil, histórias e os elos entre os pais, mães e filhos, sonhos confusos dos abrigados, só a psicanálise nos suportaria para essas e outras interpretações.


Histórias de luta contra vícios, terapias, métodos, grupos de encontros que os albergados frequentavam, já nesse sentido não negaríamos o comportamentalismo, tão pouco a cura e a busca por ela através de vossas religiões, de fato não negávamos quando eles nos falavam de autores, filósofos e discussões existenciais, em especial quando tal discussão vinha de um professor de inglês que oferecia suas aulas no albergue e como nós, não recebia nada, mas como nós, ficava feliz com o obrigado e com a transformação que podia proporcionar - ao menos era isso que nos dizia.


As discussões em supervisão eram diferentes com nosso grupo - era o que nos parecia. Era tudo muito novo, a própria literatura não tinha o foco necessário, então púnhamos missões rotineiras - formação de grupo de encontros e discussões de variados temas, a fim de dar atenção geral e formar o grupo do ponto de vista simbólico, afinal muitos haviam literalmente fugido da sociedade, de tais grupos.


Assim constituímos em um ano diferentes settings e diferentes níveis de atenção. E compreendemos que mesmo mudando os participantes em cada encontro havia uma dinâmica estática - a composição de uma fluidez social, tal como caracterizam as teorias de E. Durkheim (1858-1917) ou M. Weber (1864-1920). Empregamos, como se podia, as discussões do "Ser e o Nada" de Jean-Paul Sartre, do "Ser e Tempo" de Martin Heidegger, o que fosse existência seria necessário para àquela nova existência, que para nós num primeiro momento neste Centro de Acolhida Central, já não era caricata. A experiência e a existência eram a técnica que levávamos à rigor, àquela instituição social deturpada. Discutíamos sobre diferentes óticas da técnica e de nossa própria existência.

IV - Considerações Finais


Saíamos sem pressa, querendo voltar todos os dias, pelo simples fato de querer mudar algo, mas sabíamos que não podíamos e fomos compreendendo o caráter do longo processo que fazíamos parte (a transformação), como profissionais de psicologia, compreendíamos que eram mesmos degraus postos - um-a-um. Histórias que se revelam com a confiança e empenho de nosso trabalho, o que era retidão, esperávamos virar transformação e para confirmar que isso aconteceu - nós vimos choros, tensão - nervosismo, mesmo com brigas acontecendo entre eles e elas, conseguimos nos tornar imputáveis, não virávamos alvos, não nos eram transferidas responsabilidades por temores - ao contrário - viramos ilhas seguras; inicialmente éramos pessoas de pé e de frente para todos em um pátio - por vezes frio - por vezes com chuva - por vezes vazio - mas éramos fiéis com os rituais de estender a mão e beijos nos rostos, dar boa noite; depois com uma sala nossa, cadeiras, organização e horário de encontro.


Em meio a isso também podíamos ser subjugados por alguns, não parecíamos mais tão psicólogos, fomos advogados, médicos, amigos, padres em confessionários, moldava-nos a necessidade, diante dos olhos de outros, mas para nós mesmos era a compreensão de nós como psicólogos, ao longo dos meses nós formamos um grupo, tão caricatos como eles pareciam ser. Como estagiários e psicólogos tínhamos nosso nome chamado, perguntas feitas, de fato éramos reconhecidos pelo silêncio que propiciávamos na escuta. Cada um a seu modo, no gesto - em sutilezas.


O que de início foi dúvida por fim foi certeza, há-de-se transformar lentamente ou prontamente, dentro das necessidades emergenciais de suicidas, culposos e depressivos que riam e choravam se esvaindo da dor. As histórias impensáveis valiam cada encontro e valia ainda mais tudo que se transformava e se resgatava nelas, o último dia provou que ali existimos como profissionais, bem pagos pelo sucesso de agradecimentos e o melhor disso, quem agradece se mostra feliz por voltar a confiar e voltar a agradecer verdadeiramente uma ação social de um desconhecido, ou de um conhecido que surgiu de uma relação social.

Haviam histórias de muitos que conseguiram moradia, emprego, vão ser pais ou mães, ou voltaram a suas famílias, pararam e também voltaram para drogas - nessa questão nada graças a nós, mas para eles poderem contar para nós - ter alguém a quem partilhar, era fincar raízes, era puro e simples compartilhar com profissionais e outros moradores de rua.


V - Conclusão


A sociedade mostrou ser mutável, não como queríamos, não com assistencialismo e novas leis, não iríamos encaminhar caso a caso, com papéis e psicodiagnóstico, não era nossa missão, apenas deixávamos fluir histórias e convergir culturas, se misturava muita coisa, que em outras terras, por menos gera conflitos, muitos expuseram suas histórias, antes de tudo a si mesmos. Saíram do confortável esconderijo que se escondem diariamente, puderam lembrar-se da dor e respirar aliviados com a partilha.


Não era a hora de nós, como psicólogos, dar um mundo novo a ninguém, mas alguns puderam idealizar um novo mapa, um novo destino, para seus mundos novos.


ESTÁGIO NO CENTRO DE ACOLHIDA

Psicólogo Felipe A. Zamboni (2013)