2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • O Policarpo

Embarque: Islândia - Destino: Namíbia

Atualizado: Abr 30



Foi o verão mais quente já registrado na Islândia, chamava a atenção de todos os povos escandinavos-nórdicos. Tomava todo tempo das conversas, suores escorriam sobre faces rosadas, os vulcões e o gêiseres também suavam e tossiam.


Não eram suportáveis as manhãs, eram abafadas-tropicais, o clima temperado se temperava excessivamente de calor, e as noites foram longas, naquele que era para ser mais um curto verão de vinte e poucos graus célsius.


Alguém teria que partir nesse verão, velejar pelos mares em busca de um novo destino. O cheiro era de puro enxofre nos campos de gêiseres - a fuligem tomava o espaço do ar nos fiordes. O embarque estava programado, o porto logo viu um filho escandinavo partir. Despediam-se. O escandinavo se perdia ao longo do horizonte pouco a pouco.


O aventureiro tomou a si o alto-mar. O atlântico estava calmo. Baleias soavam seus cantos com lufadas de ar e escoltavam aquele tripulante islandês. Os terns voadores aproveitavam para pousar, de suas jornadas de pesca no ártico, naquele convés branco.


Ao todo foram incontáveis dias de viagem, em meio a raios, tempestades, animais e um incansável Atlântico, do Norte ao Sul. O viajante precisava de um porto seguro para desembarcar. A linha de Gibraltar já havia se tornado passado. O golfo da Guiné já havia sido fotografado. A costa sudoeste africana era avistada no horizonte. Finalmente um porto. Um desconhecido lugar para repousar daquela jornada sem rota e destino.


O porto desértico não foi o ideal, mas o escolhido por aquele viajante, suara em toda sua viagem, e estaria pronto para suar mais - como nunca antes. Assim Mýrdalsjökull continuou sua viagem, mas não sobreviveria àquela imensidão bege e suas montanhas de ventos arenosos. Só pôde ser salvo por uma ajuda local, que logo o levou aos ares.


Em seu voo avistou a vida que sobrevivia adaptada ao deserto, lagartos e pássaros de faces vermelhas como de sua gente. Avistou no longínquo horizonte uma manada de elefantes africanos. Continuava assim a rasgar os ares com sua inesperada carona em busca de finalmente aportar de uma longa viagem.


Logo pôde ver um vilarejo em meio a areia, terra, pedras e vegetação resistente a seca. Ouvia o silêncio ser rompido por crianças e uma bola, crianças africanas corriam em meio ao vilarejo. Algo lhe chamou a atenção, uma casa de janelas verdes desgastadas, que estava fechada. Na guarda desta casa dois homens de camisa vermelha - colares mais vermelhos ainda e todos com suas indumentárias indescritíveis; incompletas e ornadas de símbolos locais, cada um carregando sua Avtomat Kalashnikova 47 - a grande ferramenta de romper a paz.


Mýrdalsjökull se sentia diferente de todos os locais, com sua clara cor procurou onde poderia se esconder após seu desembarque. Encontrou uma poça d’água atrás da casa de comando. Esse lago temporário-itinerante atraiu apenas um cão magro. O lago devolvia um tanto de vida para aquele vilarejo. Assim ele também pôde se refrescar de sua longa jornada, de aventuras e suores.


Ele permaneceu por um tempo escondido, até uma criança despretensiosa ir próximo a ele com um balde de forma geométrica acidentada - ferrugem e ferro de mil formas, com uma argola de fios entrelaçados. Mýrdalsjökull foi descoberto, mas não visto. O garoto namíbio recolheu uma grande porção da insalubre água dessa rara chuva e levou para dentro da casa de comando. A calma logo retornou ao corpo desse islandês que pôde lembrar de sua terra natal.


O garoto então foi chamado para se reunir no centro da sala de comando, apenas dois homens adultos presentes e quinze soldados infantes, sentados na sala, ouvindo um cruel comandante, as crianças igualmente armadas de seus AK-47, como os seguranças externos. Logo o pequeno se sentou para ouvir aquele homem de roupas verdes escuras e com uma boina negra com os emblemas de sua causa.


Outro garoto se levantou para ir à cozinha a mando de seu comandante. Ele abre a funesta geladeira, de lá retirou três pedras de gelo e misturou em um copo.Nesse copo continha uma espécie de cão engarrafado de cor dourada, e assim o garoto misturou o cão e o gelo.



Mýrdalsjökull pôde conhecer de perto o comandante, notou seus dentes podres e um solitário dente de ouro naquela malfadada boca. Antes mesmo de ser engolido junto daquele cão amargo, avistou um germânico sentado na cadeira de balanço ouvindo tudo - bem armado - enrolando seu cigarro - cínico com seu chapéu de caçador e olhar que propaga a dor.


Assim acabou a jornada de mais um islandês viajante - nadador e voador, e assim vão se perdendo os glaciais islandeses pelo mundo novo, global e aquecido.


EMBARQUE: ISLÂNDIA - DESTINO: NAMÍBIA

Policarpo Praxedes (2015)


DICAS AO LEITORES

Björk - Joga (Clipe)

Beast Of No Nation - Cary Fukunaga - 2015 (Filme)

Diamante de Sangue - Edward Zwick - 2007 (Filme)

O Senhor das Armas - Andrew Niccol - 2005 (Filme)

Sobrevivente - Baltasar Kormákur - 2014 (Filme)


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