2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • Psicólogo Felipe Zamboni

Delimitando Fronteiras - O Eu e o Outro (O Corpo e os Afetos)

Atualizado: Jul 7


Imagem Original @xavierhufkens

O Corpo


1. Introdução


A mãe inaugura a experiência do bebê no mundo exterior, com o toque e satisfazendo suas necessidades básicas. E o bebê antes de mais nada, é o desejo de alguém. E um longo caminho de experiências e desejos recíprocos aproximará ainda mais, o cuidador ao bebê, no percurso de amadurecimento físico e psíquico dele.


“Com efeito, a mãe escreve sobre o corpo da criança a série significante que a afeta em relação a ela. Não poderá fazer dele seu objeto erótico e isto gera um traçado descontínuo nas suas aproximação ao corpo da criança. (...)”. (Jerusalinsky, 2012)

Neurologicamente o bebê ganha “contornos”, recebe estímulos que se associam com significados, seja de afetos negativos ou positivos, ou reprimenda e todos os possíveis signos associativos. Ele irá incorporá-los e criar uma rede de arquitetura neural, conservando os movimentos e atitudes que se mostram mais adaptados às suas necessidades e demandas do mundo externo e assim, em sucessivas experiências sensoriais e fisiológicas, constituíra-se em um modo de ser – “cada dia mais sólido e menos plástico”.


E essas demandas sociais que visam constituir um sujeito – cheio de contornos adaptados ao ambiente, se tornarão as interdições exterioras. Àquelas proibições que preveem o “incestuoso” ou o demasiado – este originariamente de uma mãe que “ama demais”; vê no filho a possibilidade de um total controle e a possibilidade de criar em cada um dos possíveis contornos a imagem de seus ideais, físicos e psíquicos, fantasias aceitáveis ou inaceitáveis. O pai representa este interditor simbólico da sociedade, a figura que porá limites, ao desejo resultante do filho.


“(...) O [Outro] está incluído na superfície do sujeito; esta é a primeira forma de identificação através da qual o sujeito começa a se constituir como tal, numa forma que devemos chamar de incorporação (...) ”. (Lefort apud Jerusalinsky, 2012)

S. Freud (1856-1939) apresentou como origem central da Neurose em sua prática médica, o conceito de Complexo de Édipo – na representação da Mitologia Grega (Édipo rei), em que o filho se casa com sua mãe, e assassina o pai. E para Freud, “desejos e fantasias” dessa natureza são uma experiência comum aos seres humanos, convertendo-se durante um árduo processo nas leis primordiais e contratos sociais, e o reconhecimento psíquico da criança, na série de limites que a sociedade impõe.


Quando ele apresentou para a comunidade científica, a possibilidade da “sexualidade” infantil se instaurar já nos primeiros anos de vida de uma criança, gerou repulsa e ataques, buscava desvelar uma construção de forças obscuras por trás do psiquismo, e essa percepção também trazia consigo não só os perigos da geração de sintomas que surgirão em fases posteriores do desenvolvimento, mas na melhor compreensão sobre os cuidados da criança.


Nesta mesma exposição Freud apresenta todo o aparato instrumental fisiológico que estimula essa relação, e destaca-as como “zonas erógenas” – áreas do corpo da criança que recebem a carga de estímulos oriundos do mundo interior (fisiológicos) e exterior, áreas especialmente sensíveis à diferentes tipos de experiências. Os próprios excrementos do bebê e o controle do esfíncter criam essa representação, onde podem trazer desconforto para o mundo exterior, e logo ele perceberá este valor de tal poder – de ter capacidade de interagir com o mundo exterior em cada um de seus atos possíveis. Ou a urina, que muito além de esvaziar a bexiga, pode trazer alívio à tensões de fundo emocional.


2. Responsabilidade Terapêutica


E cabe neste processo, ao mundo exterior, o cuidado com a intrigada experiência psíquica associada à rede neurofisiológica por trás deste arranjo do desenvolvimento infantil. As experiências de “repressão” que o mundo adulto oferece, é antes de mais nada, o protótipo que será assimilado na criança (neurotípica ou neuroatípica). Pois a criança reconhecerá nas ações e cuidados do mundo exterior – um arranjo de possibilidades, e se valerá das vias de conexões recíprocas (deseja e é desejada). Onde pode se ver como objeto de um “amor desmedido” de seus pais ou cuidadores, a tal ponto que se constituirá como objeto de amor – e expressará essa posição; neste ponto reside o perigoso e evitável – deve-se então, estabelecer todos os limites necessários.


O cuidado primário é reconhecer em si – impulsos, e não estender ao outro à responsabilidade de aliviar seus próprios impulsos, um exemplo – um beijo que excede o cumprimento social, ou excede um gesto expresso de ternura, a linha por vezes é tênue, mas é claramente perceptível com exercícios diários. Refletir sobre, é o primeiro deles, especialmente quando o adulto é quem é capaz de controlar a dose deste afeto – o interditor.


O corpo do outro, inicialmente tem que ser visto como uma instituição privada (do outro), em qualquer que seja a sua demanda de cuidado, estabelece uma ligação com tons cuidadosos e zelosos, ofereça ao outro uma melhor percepção de si, já o excesso – em especial nas síndromes e no autismo (hipotonias e desarranjos sensoriais) trará apenas prejuízo à percepção do toque e do cuidado, reconhecendo naquele ato – uma desconfortável intromissão, e sobre a perspectiva simbólica, invadirá o mundo privado da criança, impondo à ela a percepção que seu corpo e o corpo do outro são “instituições públicas.


Os gestos sobre o corpo do outro, devem também ser vistos com o mesmo olhar sobre o nosso, em que não esperamos rupturas de direitos ou intromissões inapropriadas – cada gesto tem a capacidade de ser temerário ou sútil, a questão aqui é a dose. Um conceito também na psicanálise sobre o desenvolvimento do corpo associado ao aparato psíquico é o termo handling (D. Winnicott) – onde as rotinas diárias como trocas de roupa, necessidades fisiológicas e outros contornos são devidamente sustentados – a mãe (ou cuidador) cria o cenário mais real possível (necessidade objetivas). Onde o cuidador sabe auxiliar e saber sair de cena – integrando o corpo em diferentes funções e responsabilidade aquele corpo à criar um self – uma personalização.


O objetivo aqui é o cuidado com a aproximação; recorrer à educação – pedir licença (sempre que possível) – é o indicado. Ainda que para bebês e crianças com transtorno no neurodesenvolvimento a fala possa parecer uma convenção desnecessária, não é -, pois tudo aquilo que oferecemos ao outro é parte do processo terapêutico, L. Vygostky (1896-1934) destaca processos como esse no aprendizado e desenvolvimento infantil, nomeando como zona de desenvolvimento proximal – onde há uma capacidade tangível na criança de desenvolvimento, e será estimulado pelo adulto à alcançar essa capacidade diante de estímulos (uma intercessão entre a capacidade real da criança e a potencial).


3. Estímulos Físicos e Motores (A Personificação)


Para a mãe, as terapias corpóreas podem ser sede de um desconforto aflitivo, onde forçar o corpo de seus filhos, é macular os afetos por ela desprendidos sobre ele – sobre aquele corpo (incapaz de corromper-se). Essa mãe imagina que todos deveriam manter as marcas maternas invioláveis, naquilo que seu próprio ventre tornou inviolável. É mesmo aflitivo além do mais, para a família de uma criança – com paralisia cerebral (ECNE) por exemplo, que ela alcance autonomia em algumas funções motoras, rompendo assim, com a fantasia de dependência absoluta que a mãe estabeleceu com seu filho.


E o próprio choro e desconforto do paciente é sempre um desafio imposto para a mãe, acostumada a atender a cada chamado incondicionalmente e posta num jogo sem perceber – um ciclo, em satisfaz necessidades e cria demandas. Na clínica estes são só alguns dos arranjos possíveis, que se estendem ao desenvolvimento de todas autonomias – e facilmente notamos a lentidão dos pais em se despedir de seus filhos, a curiosidade de acompanhar um atendimento, as perguntas, em tom de afirmação – ele (a) chorou hoje? Ele (a) chorou hoje? E outras.


A dependência absoluta, no caso da imposição por condição neurológica, segue os rastros do desenvolvimento maturacional de um bebê sadio, ao adquirir autonomia. Para D. Winnicott (1945) a dependência absoluta, nunca será uma “independência absoluta”, mas o ambiente proverá as condições necessárias para o bebê (também o deficiente) vir-a-ser e constituir-se de forma potencialmente adaptada, constituindo funções e integrando-se, como parte do processo de personificação – deverá o ambiente oferecer as condições destes contornos conhecido como “holding”.


“O bebê que não teve uma única pessoa que lhe juntasse os pedaços começa com a desvantagem a sua tarefa de auto integrar-se, e talvez nunca o consiga, ou talvez não possa manter a integração de maneira confiante.” (Winnicott, 1945)

O ambiente não irá garantir que fará a criança, e terá ainda mais percalços de alcançar objetivos com o bebê e a criança deficiente, mas o ambiente fornecerá em ambos casos as condições necessárias para aflorar os potenciais dispostos naquela criança, e vale lembra que na ausência de condições físicas esperadas, podemos encontros sujeitos temperamentais e com motivações particulares, na impossibilidade de constituir o sujeito que não anda ou não fica de pé, podemos constituir o sujeito que é capaz de vagar sobre as relações.


Afetos


4. O Outro Como Destino


A natureza do afeto é justaposta ao corpo – como uma extensa cadeia, capaz de receber e perceber a natureza do afeto recebido. Em suma, o afeto é conteúdo e o corpo continente. Vale pensar sobre a família que responsabiliza o filho pela satisfação de suas necessidades afetivas – um filho nomeado, que desde cedo recebe a responsabilidade de consagrar a família com um feito heroico, ou simplesmente a mãe que dorme abraçada com o filho e facilmente o confundi com o urso de pelúcia (sem ter consciência disso) – com a função de abarcar as possíveis descargas aqui presentes.


Ao que parece, o mais comum é a necessidade de regulação constante, uma aprovação sentimental, em que a busca pelo outro – pelo sorriso, sutilezas,

é reduzi a angústia e afasta por algum tempo a possibilidade de não ser amado. Ou seja, oferecemos o afeto de forma incessante, como uma planta constantemente regada. E para as plantas e para os humanos – o excesso não é solução.