2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • Psicólogo Felipe Zamboni

Complexo de Macunaíma - A Identidade Brasileira

Atualizado: Abr 29


Macunaíma - Tarsila do Amaral (Adaptação FAZ)

I - Ideologia Sobre o Povo Brasileiro


Existe uma ideia socialmente concebida, de um tal "jeito brasileiro" de ser - uma adaptação de costumes, próprios do povo brasileiro. Durante o percurso do texto é essa concepção que tentarei abordar como um ponto central dessa questão e seus meandros; não será uma crítica ao comportamento de uma sociedade soberana; que de fato é soberana em sua cultura, língua, economia e ordem social, mas sim uma reduzida ilustração da realidade que permeia nosso comportamento e nossas transformações sociais, pela luta por direitos, igualdade, ideal de felicidade e a consolidação da nossa identidade - algo que defina nossa sociedade como produtora de sua realidade e sua materialidade, sendo ela social e cultural.


Para melhor ilustrar essa crítica usaremos um elemento chave que tem um valor análogo importante na literatura brasileira, que através do olhar crítico de seu autor faz uma referência velada das interações sociais e de todo papel do desenvolvimento livre do povo brasileiro através da busca em seu ideal de civilização.


A obra em questão trata-se de Macunaíma um anti-herói que pode bem ser descrito como preguiçoso, malandro, ou por hora apenas como este “anti-herói” nacional; que facilmente se livra de obrigações, não segue leis e nenhum princípio moral que possa lhe regimentar.


As interpretações da obra serão sobre certa ótica da antropologia funcionalista e da psicanálise, pois assim compreendemos símbolos representativos que vão além da ordem de uma consciência lógica daquilo que somos, fazemos e compreendemos, e não só para um indivíduo, mas a soma destes criando uma realidade sociocultural neste espaço-tempo, e se desdobra numa análise sócio antropológica do povo brasileiro numa mítica em que se expressa o quem nós somos.

SUGESTÃO SONORA

Ñande Reko Arandu (Memória Viva Guarani)

II - Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter

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A obra literária de Mario de Andrade (1893-1945), apresenta como valor final um consagrado anti-herói, Macunaíma; e o retrataremos como objeto material produzido por nossa realidade e nossa cultura, melhor descrito num fragmento inicial do livro de 1928.


"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. (...)" . (ANDRADE. M,1928)

A mesma obra também foi adaptada ao teatro e a um roteiro de cinema que deu origem ao filme homônimo escrito e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, o filme data de 1969, integralmente baseada na obra de Mario de Andrade, talvez até possa se encontrar no roteiro adequações linguísticas ou uma transformação adequada à época, devido principalmente ao fato do período em questão estar envolto na ditadura militar brasileira.


O filme e o livros são rapsódias de eventos sem exata cronologia, apenas um emaranhado surrealista, que o todo pode ser descrito como a realidade brasileira e sua miscigenação, por vezes Macunaíma é índio, outrora é mulato, até loiro chega a ser, do Nordeste vai a São Paulo e de lá ao Rio de Janeiro, no final volta a sua cidade natal, sem o que foi procurar, uma pedra que lhe foi roubada - M​uiraquitã. O que nos faz pensar, se Macunaíma não foi buscar novamente sua identidade, que lhe fora roubada, ou algo anterior a própria identidade, fragmentado ao final de sua jornada, não a encontrou, está foi assimilada pela natureza – engolida.



Nesse livro de um dos artistas fundadores e consagradores do Modernismo brasileiro (Mario de Andrade), retrata-se que Macunaíma nasceu negro e índio, e ao decorrer da sua jornada muda sua pele e sua raça. No cinema o ator Grande Otelo é o bebê Macunaíma - índio mulato, ao longo do filme o ator Paulo José é o Macunaíma aloirado - galego.


Sobre o desenrolar da história não fica perceptível onde se quer chegar, além da busca de Macunaíma pela sua pedra sagrada, vemos apenas uma luta pela sobrevivência considerando as suas próprias vontades, uma adaptação moral possível a se ter, atendendo a interesses e impulsos próprios, nem a gramática portuguesa é corretamente seguida na escrita e na fala um português próprio – apenas nos é apresentado uma diacronia, ou seja, uma transformação linguística e de modos sociais sem fim.


Essas reinvenções linguísticas buscam favorecer o saber do nosso “herói” ao saber da sociedade como uma congruência linguística e de costumes - por final pode-se dizer que o termo anti-herói define bem Macunaíma, por que ele não guarda suas vontades ou retém seus instintos por leis ou moralidade, ele apenas segue atalhos e retira vantagem até mesmo de simbólicos demônios devoradores de gente, sempre ganhando tempo entre batalhas, desafios e é alguém que se satisfaz tirando pequenas vantagens, conservando um ideal de si mesmo, que se opõe aos elementos morais, estabelecidos aqui por outros povos.


Macunaíma já nasce narcísico, narcisismo esse se destaca em sua figura de certo redentor da mata selvagem, mas perde-o em meio a um mundo que logo lhe impõe seus limites de não satisfação completa, então Macunaíma estabelece um ideal do eu em busca de sua pedra, salta então à uma busca de se restituir no mundo que não se mostra como seu reinado, daí um recorte de Sigmund Freud (1914), que bem se assemelha nessa odisseia tupiniquim.


“A esse ideal do Eu dirige-se então o amor a si mesmo, que o Eu real desfrutou na infância. O narcisismo aparece deslocado para esse novo Eu ideal, que como o infantil se acha de posse de toda preciosa perfeição. Aqui, como sempre no âmbito da libido, o indivíduo se revelou incapaz de renunciar à satisfação que uma vez foi desfrutada. (...)”. (FREUD, S. 1914, pg.27)

Este ideal de si em Macunaíma se funde a elementos pré-existências sociais, e também se perde em meio a procura para satisfazer seus ideais; ele terá que encontrar atalhos, pois senão, só encontrará entraves para restituição daquilo que fora tomado, como rei e herói, filho legítimo da mata, que neste momento não é mais, pois o reino brasileiro já fora tomado, por outros reis e rainhas, colonos de além-mar, que aqui depositaram seus próprios ideais, leis, moralidade e limites, assim sendo, um perfeito ensaio sobre aquilo que parece edificar o ideal do eu em Macunaíma.


III - Pós-concepção Modernista


O autor aborda a temática de Macunaíma como elemento de um idealismo nacionalista, da busca desse ideal emancipatório, a expressão é ideológica e política no transcorrer da obra, e é pessoal a todos nós, pois expressa que uma cultura outra nos aprisionou, trouxe-nos cores, sabores, verdades e esses tais princípios, enquanto nos catequizavam sobre lemas que não faziam parte de nossa história, apenas nos regimentou.


Tudo aquilo supostamente que éramos (tribos brasileiras), nada mais era que pura selvageria, chegou a nós então os limites; os índios retratados em Macunaíma descobriram que estavam nus, um novo complexo em nós é instaurado, iniciando essa cadeia de eventos nessa fase em que não éramos mais livres infantes.


Esse recorte é apenas como esboço de uma visão de movimentos sociais que se estabeleceram no Brasil, usando de referência a obra - Macunaíma – O Herói Sem Nenhum Caráter, esse somos nós, os heróis e anti-heróis dessa gente, que fazemos farra nas urnas democráticas, nas fábricas, nos dias e segundos em que podemos nos divertir, festejar, se espreguiçar e nos vangloriar de uma promoção profissional, galgando sempre pequenas conquistas, que pareçam nos devolver, uma satisfação plena, daquilo que nos fora tomado. Macunaíma por hora é nosso redentor não só produtivo, mas ideológico, que prova que os hábitos, costumes e fetiches sociais devem ser aceitos do jeito que são - ou - não; ou eles tenham sido impostos por outra cultura, que não a nossa real e funcional cultura brasileira, filhos dos espíritos da noite e do dia, filhos da selva.


Não cabe aqui discorrer sobre os costumes tribais indígenas brasileiros, pois, são múltiplos entalhes que estavam presentes em nossa cultura pré-colonial. Se constituí esse complexo, pois se unificou em uma única poda (castração)[1] de diferentes culturas, essa castração entenderemos como o nome que unificou em uma bandeira e uma nação, Brasil, antes não havia a noção de nação, como um todo social, era uma pueril existência.

[1] A questão do eu, perpassa sobre o falo na metapsicologia freudiana, é de grande impacto a sua existência, principalmente diante da possibilidade de sua ausência, é então de grande temor ao narcisismo sua ausência, podendo isto ocorrer, elaboradamente pela fantasia da criança.

IV - O Nome Brasil


Esse nome Brasil, da gente de Macunaíma tem relação ao nosso antes abundante Pau-Brasil - a madeira cor de brasa, também já fora discutida historicamente sua origem sendo oriunda de outros povos, como de origem celta, possivelmente chamando aqui de a terra das delícias -​ Ilha Brazil. Essas são algumas possibilidades de nosso nome estrangeiro, celebrando assim a descoberta de nossa terra, depois de inicialmente chamar Monte Pascoal, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Nova Lusitânia, Cabrália e outras, ao fim o nome se consolidou e resplandeceu.