2020

II -Segundo Ato

Aproveite a Leitura

  • O Policarpo

As Bruxas dos Mares - O Atol das Rocas


Belo dia fazia em Natal, as dunas ciscavam de um lado ao outro, e o sol brilhava arqueado em sua ribalta!


Um proeminente e jovem - senhor promotor de justiça, assim também estava, contente, só um tanto entediado, toda sua vida estava saindo naquele dia como planejada; os protocolos todos assinados, sua bela e jovem esposa a essa hora já havia renovado o bronzeado, platinado um tanto mais o seu dourado cabelo, e a alta sociedade potiguar estava igualmente satisfeita com seus desejos saciados a bel-prazer.


O promotor perdeu a total paciência quando viu o belo dia e ouvia o recorrente assunto político, discutido pelo seu pai ex-governador, e seu avô ex-embaixador, olhou então pela janela e via o mar, pensa que aquilo não era hora de camisa fina, era hora de um grande iate com boas companhias.


Disse o doutor Cavalcante Neto:

- Bem, não estou me sentindo bem, vou sair e pegar um ar!


E assim saiu, voando numa perna só, saracurando pelo corredor de seu escritório - quicando os dedos no teclado de seu telefone, ligou e chamou dois bons amigos para passar nesse dia chato, de se trabalhar, em meio a uma semana quente; os amigos prontamente embarcaram na mesma ideia! Partiram juntos ao cais do porto, mas não sem antes completarem os planos chamando quatro companhias femininas!


Chegaram ansiosos ao iate de família, desembarcam dos carros trêmulos de alegria, levando pouca roupa e algumas bebidas! Apenas uma exigência feita!


- Vamos deixar nossos celulares no carro, nossas mulheres vão querer falar com a gente!

- É, deixa essas pra lá!


Decidiram e fizeram, hora de partir, ancora içada, motor ligado, som alto, bebida misturada, tudo e todos em iate moderno e equipado! O almirante era o promotor! As mulheres eram belas, pouco ligavam para o biquíni, apenas para a bebida e as danças, mar adentro, peixes ao lado, cada metro adiante e tudo ficava mais claro, o céu e a água.


Alguns quilômetros depois em sentido a liberdade do horizonte, paravam por vezes, mergulhavam e voltavam.


- Por hora tudo safo!


Dizia o almirante!

E riam, a esse momento todos embebedados!


- Ihhh... a morena mareou! Hahaha!


Uma das companhias passava mal, segura seu cabelo, vomita e já pensava em se recuperar para a próxima festa fora de hora! Tudo girava na sua cabeça, até que ela pulou e caiu, o iate sacudiu sem ser percebido foi levado pela maré para os corais, lá mesmo ancorou!


O jovem Cavalcante Neto correu com os amigos para estibordo do barco, notaram a batida na rasa ilha calcificada - corais e pedras calcárias, algas bailavam com a dança das águas, enquanto gotas deram seu jeito de ir para o motor do iate, até formarem poças. Os jovens correram agora para a cabine, quando foram ligar o barco nada aconteceu! As engrenagens refugavam em cada tentativa!


Eles foram para as águas ver o estrago, ninguém percebeu os corais se aproximarem, ou eles dos corais; reclamavam e aos poucos perdiam a alegria, as mulheres continuavam a festa, se alegravam com tudo, imaginavam que em instantes tudo estaria resolvido, logo uma formosa ruiva viu dois golfinhos nadarem, bêbada pensou!


- Os mecânicos chegaram, olha só eles perguntando, o que foi que aconteceu!

- Que bonitinhos!


Dizia e ria, caiu no convés com o copo na mão, pedras de gelo ao chão, já se roupa alguma, seduzia os golfinhos, ou eles a seduziam!


Não demorou e quis se preparar para tirar fotos belas, com os animais ao fundo, chamou as outras duas amigas que ainda não estavam caídas, e tirou duas fotos, um infinito azul ao fundo, cores nos óculos, bonés, batons, com os biquínis novamente vestidos!

Os jovens amigos se preocupavam com a dimensão que tomava aquilo, longe da costa, sem sinal de ajuda, apenas avistavam um farol corroído!


- Ei vocês, não vão tirar a gente daqui? Perguntou uma delas!

- Que chato isso hein, daqui a pouco acaba a bebida, e a bateria do meu celular!


Pensaram elas em mostrar rapidamente para o mundo a tarde feliz! Compartilhar tanta beleza e embriaguez, mas nada de sinal, então elas reclamaram, não suportavam que tudo não fosse imediato, na hora exata que queriam que tudo fosse - da forma que fosse - assim queriam elas todas; e eles querendo que aquele acidente tolo nada fosse! Mas era! Mais água no barco, hora de contatar ajuda no rádio!


O sol já se aquietava no céu, se retraía levando consigo a tarde boa, a preocupação aumentava nos jovens! Eles precisariam contatar a capitania dos portos e pedir ajuda - uma mão ao rádio, outra mão buscando a frequência, mas a onda inicial que chega é de um ensurdecedor e agudo grito, incompreensível, fino, desatino; eles buscam em desespero a frequência certa e só encontram chiados e interferências, os celulares descarregados ou sem nenhum sinal, o rádio não responde aos comandos, nenhuma solução em todas as tentativas.

Um dos jovens se dispõe a resolver todos os problemas, enquanto a água continua a tomar o espaço no motor, e se aproxima da cabine!


- Eu vou naquela ilha do farol, deve ter alguém para ajudar, sinal, ou algum telefone, está perto consigo ir nadando!

- Então vá, depressa! Acelera o passo e tome cuidado com esses corais, a correnteza tá jogando tudo para eles!


Assim ele salta ao mar, os golfinhos te escoltam, enquanto ele desvia dos corais, o jovem mistura sua aptidão física de nados aprendidos, com passos para fugir de cada espinho pontiagudo - se distanciando do barco, ele ainda pode ser visto por todos, esperando que algo possa ser resolvido! Então um deslize - olhando para trás, um pequeno ser se zanga, um belisco, um espinho e uma dor, pouco antes de chegar na ilha, ele sente seu pé sendo pego por algo, tal como uma ferroada, mas não tem tempo de pensar - pisa na areia mesmo com dor e encontra a desértica ilha com sua placa de boas-vindas!


- Ilha do Cemitério, cuidado onde pisa!


Ele nota o primeiro farol que fora avistado, já antigo e desativado, ao fundo um novo farol, caminha sobre a areia clara como luz, ele nada encontra que lhe traga soluções, algumas ruínas e cruzes ao fundo, perto do novo farol um casebre, uma pequena estrutura de comando.


- Possivelmente haja ferramentas lá, alguma coisa que vai ajudar!


Ele entra, vê as pás empilhadas, fios, uma estante com potes vazios, e alguns com insetos, uma mesa com gavetas, nela papéis, tesouras, vasos de plantas sem vida, pedras brilhantes e uma velha estação de comando.


- Lá está, finalmente esse rádio!


Estaria nessa estação uma solução, ele aperta os primeiros botões, e o sinaleiro acende em meio a luz, de pouco lhe adianta, outros botões e uma sirene soa, até que em meio a seu anseio e desespero a mesa de comando encurta sua vida entrando em curto, fumaça e fios queimados, um fétido cheiro de borracha, ele não acredita que poderia estragar algo que deveria funcionar de forma tão simples!